Segunda-feira, Janeiro 23, 2012

Mar de enredos

Navegamos num mar de enredos:
mal a onda se esvai, logo outra vem
entre limos, enigmas e segredos
a que não escapa ninguém.
Por mais absurdo que o caso seja,
há sempre quem, por despeito ou inveja,
lhe dê sequência e atenção
para rapidamente o abandonar
em troca do que tome o seu lugar
na infindável sucessão.
E assim vamos gastando os dias
em novelos e ninharias.

Quinta-feira, Janeiro 19, 2012

Frágil coração

Coração que batias e insistias
em bater, contra pausas e cansaços,
volta a ser, como eras nesses dias,
pássaro livre riscando os espaços
largos e azuis. Ó frágil coração,
herói de tantas lutas e ousadias,
volta a bater como outrora batias,
ao compasso das horas de paixão
com que tão sabiamente me iludias.

Segunda-feira, Janeiro 16, 2012

Ainda e sempre

Ainda um dia hei-de contar-te as espantosas
coisas de que me lembro quando fico à tua espera
horas e horas, cada vez mais vagarosas,
e tu não chegas, meu amor, e tu demoras
mais do que a minha paciência. Quem me dera
aquele tempo em que era sempre primavera
e assistia indiferente à passagem das horas.
Mas, quando chegas, só me ocorre esquecer tudo
e ter-te uma vez mais como quem tem o mundo.

Quarta-feira, Janeiro 11, 2012

Incerteza

Rua da Imprensa à Estrela
Cada hora é motivo de incerteza
sobre a hora seguinte, se é que além
do que se tem agora irá haver
alguma coisa mais. A natureza
do tempo é ser a leira de ninguém,
aberta à lavra de quem a quiser.
Tão-pouco importa já ficar atento
às negaças do sol, à chuva e ao vento,
que não se ocupam de deveres de agenda
nem têm pendurado um calendário
e, sendo a vida breve e o mundo vário,
não é de esperar que conheçam emenda.

Sábado, Janeiro 07, 2012

O teu sorriso

À Maria, nos seus seis meses
Agora, é o teu sorriso
que me adoça os dias
e, vendo bem, de nada mais preciso.
Quando ainda não existias
e apenas te sonhava,
o tempo transbordava
de horas longas e sombrias.
Mas, desde que chegaste,
tudo ganhou outro sentido,
pois de súbito iluminaste
e soubeste enternecer
o rumo desconhecido
que me resta percorrer.

Segunda-feira, Janeiro 02, 2012

Sem maneiras

Rua Dom Pedro V
Um ano após o outro, este artifício
que nos tenta iludir:
mero exercício
de dividir.
Como a tristeza cede à alegria
e em precisão
a noite origina o dia,
eis que o tempo não
sabe ser complacente
ou ter maneiras,
seguindo em frente
sem barreiras.

Sábado, Dezembro 17, 2011

Boas Festas...

...e Feliz 2012 para todos os amigos,
leitores e comentadores, habituais ou ocasionais,
do "Ofício Diário".
Até para o ano!

Segunda-feira, Dezembro 12, 2011

Alegria

Travessa de Santa Teresa
Todas as vezes que te perdi
foi para te achar depois.
Quem se ama nunca se deixa.
Sempre que fico longe de ti
ou nos perdemos os dois
não vale investir na queixa.
É que mais dia menos dia
serenamente e sem pressa
tudo entre nós recomeça
com redobrada alegria.

Segunda-feira, Dezembro 05, 2011

Prosseguindo

Da Estação do Rossio
Foi tudo há tanto tempo que por vezes
dou por mim a pensar que não fui eu
mas outro que viveu
as noites e os reveses
que a vida me estendeu.

Venho de longe e trago nos ouvidos
o eco de coisas que não sei
se perdi ou tão-só abondonei
nos caminhos percorridos.

Resta-me olhar a paisagem
e prosseguir a viagem.

Terça-feira, Novembro 29, 2011

Sete anos

Cais do Sodré
Tudo começou assim, a 29 de Novembro de 2004:
As palavras sucumbem ao vazio
da própria pequenez.
Nenhum cais tem a forma do navio,
nenhum navio a forma das marés.

O tempo foge.

Quinta-feira, Novembro 24, 2011

O comboio errado

Santa Apolónia
Tomou na vida o comboio errado
e em vez de sair na primeira paragem
prosseguiu viagem
para nenhum lado.

Perdeu-se do passado que não teve
e do futuro que não tem,
mero episódio de novela breve
que não acaba bem.

E um fumo pesado e espesso
diz-lhe que não tem regresso.

Segunda-feira, Novembro 21, 2011

Recado

Querida Lisboa
Toda a poesia é um recado
com destinatário
mais ou menos disfarçado.
Eu, desde que te vi,
dou-me ao ofício diário
de escrever para ti.

Quinta-feira, Novembro 17, 2011

A falta

Rua Marcos Portugal
Construímos a casa, alheios ao medo,
por entre a solidão e o arvoredo.
Uma janela dava para o mar.
Depois chegou a noite e o enredo
do escuro se instalou como em segredo
por todos os recantos do lugar.
Foi então que partiste e muito cedo
dei por falta de ti e do luar.

Segunda-feira, Novembro 14, 2011

Prece

Calçada do Carmo
Peço o meu pão
e a liberdade de poder comê-lo
sem constrangimento.
E, se outra coisa peço, não
é mais que a tua mão no meu cabelo
quando me toma o desalento.

Quinta-feira, Novembro 10, 2011

Abandonados

Príncipe Real
Fomos todos abandonados
pelos antepassados
que nos deixaram sós
como se nós
fossemos feitos de algum metal
capaz de resistir
a tudo quanto, bem ou mal,
pudesse sobrevir.

Mas nós vivemos no vento,
frágeis folhas caídas
das árvores do momento,
e as nossas vidas
oscilam sobre um ténue fio
ligando as margens do rio.

E uma vez também nós antepassados,
alguém nos há-de acusar
de termos abandonado
quem nos foi dado amar.