Segunda-feira, Maio 19, 2008

Princípio e fim











Acrílico
sobre tela
TL, 2008

Como se tudo aquilo em que tocassem
as nossas mãos se transformasse em espuma
e os olhos, feitos barcos, navegassem
serenos e altivos sobre a bruma.

Como se não sobrasse mais nenhuma
noite em que os nossos corpos se enlaçassem
e abraçados vencessem, uma a uma,
quaisquer barreiras que nos levantassem.

Como se fosses o princípio e o fim
do que sempre quis para mim.

Quinta-feira, Maio 15, 2008

Impossível clonagem
















Jacarandás da Avenida Dom Carlos I "posam" para o pintor japonês M. Nagashima
Foto TL


Ninguém é repetível, não existe
forma de clonar a alma.
Por mais que atrás de um amor
venha outro amor,
a verdade é que não será igual
ao amor que já foi.
E todo o amor que teremos
a seguir ao que temos
por força será distinto
do que algum dia tivemos.
Amar é sempre despedir-se
de quem se ama.

Segunda-feira, Maio 12, 2008

Parecer











Outro
jacarandá
lisboeta
em flor
Foto TL

Pensei que era possível, mas não foi
isso que aconteceu.
Ficámos sem palavras, tu e eu,
e agora o que nos dói
não é a dor do erro cometido,
que sempre acaba em tédio,
mas o mal sem remédio
do tempo não vivido.

Resta-nos, no entanto, pela frente
o tempo por viver.
E é como se de repente
tudo ganhasse um parecer
muito diferente.

Quarta-feira, Maio 07, 2008

Assombro













Jacarandá
de Lisboa
Foto TL

Vou pousar a cabeça no teu ombro
até que a dor me passe e venha o dia
de descobrir de novo aquele assombro
com que, ao ver-te, o olhar se me tolhia.
O dia que, entre os dias, seja o dia
de sentir que o mistério do teu ombro
me deu de volta o mundo em que vivia
num tempo que era feito do assombro
com que o sonho dá corda à fantasia.

Domingo, Maio 04, 2008

Madrugada










Acrílico
sobre tela
TL, 2006

Às vezes parece que o mundo desaba,
mas não podemos desabar com ele,
por mais que nos queime a pele
a sensação de que tudo acaba
ou está prestes a ruir.
Depois da chuva, a enxurrada
prenuncia a madrugada
que há-de vir.

Quarta-feira, Abril 30, 2008

Antes pudesse










Das Portas
do Sol
Foto TL

Antes pudesse não saber de ti,
ignorar onde param os teus olhos
e seguir em frente.
Antes pudesse, desde que te vi
a vez primeira, ter os mesmos sonhos
de toda a gente.
Antes pudesse afugentar o medo
de te perder, que a toda a hora
faz o meu desespero.
Antes pudesse arredar o segredo
do amor que lentamente nos devora.
Antes pudesse, mas não quero.

Domingo, Abril 27, 2008

Ao espelho












Cais do Sodré
Foto TL

Olhei-me ao espelho e não reconheci
no rosto que do espelho me espreitava
a nitidez da imagem que de mim
desde sempre guardara e sempre vi.
Eram outros os olhos que me olhavam
por trás do espelho. E aquilo que senti,
ante o intruso olhar que me fitava,
foi, acima do medo, a dor sem fim
de nunca mais poder rever-me em ti.

Quarta-feira, Abril 23, 2008

Quadros de uma exposição






















(Clique nas imagens para aumentar)

Terça-feira, Abril 22, 2008

Hoje





(Clique na imagem para aumentar)

Sexta-feira, Abril 18, 2008

Roleta












Acrílico
sobre tela
TL, 2008

Não acertei na cor, errei no par
ou ímpar e a mão falhou-me
entre o maior e o menor.
Mas continuo a jogar
no número que inventei para o teu nome,
o número do amor.

Insensível à sorte que me aguarda
e que bem pode ser nenhuma,
o dado rola sobre a mesa como a espuma
na areia e vai morrer em nada.
Mas eu insisto na jogada.

Terça-feira, Abril 15, 2008

Cárcere privado















Rio Tejo
Foto TL

Mais que prender-te nos braços,
encarcerei-te no coração
e desde então
ficaram nossos todos os espaços
da ilusão.

Somos um só e navegamos,
felizes e libertos,
por florestas e desertos,
rios e oceanos.

E nada traz mais agrado
que este cárcere privado.

Quinta-feira, Abril 10, 2008

Rendição














Acrílico
sobre tela
TL, 2008

Pode ser que, na hora da partida
para onde eu não sei e tu tão-pouco,
o navio se limite a um silvo rouco
e nenhum lenço acene em despedida.

Pode ser que a memória dividida
entre o cais de partir e o de chegar
permita a invenção de algum lugar
onde nos seja dada uma outra vida.

Pode ser, pode ser, mas ninguém sabe
o que se esconde para além do muro
que nos impede a vista do futuro.

E, sendo assim as coisas, só nos cabe
abraçar a sublime rendição
de apenas escutar o coração.

Segunda-feira, Abril 07, 2008

O amante de Lisboa









Terreiro do Paço
Foto TL

Lisboa tem muitos amantes
e eu sou apenas um deles,
mas a verdade é que, todas as noites,
a minha cama se perfuma do seu cheiro
e quando, pela manhã, saio para a rua,
vejo claramente nos olhos dos outros
uma inveja inescondível.
E se, ao longo do dia, me assalta o medo
do fim da nossa mancebia,
logo o sol do seu riso me protege
de qualquer sombra de melancolia.

Quinta-feira, Abril 03, 2008

Dor















Eléctrico 28
Foto TL

Doem-me os livros que não li
e devia ter lido. São expostas
chagas que nunca hão-de sarar.
Assim também os filmes que não vi
e devia ter visto. São apostas
que perdi e não vou recuperar.

Mas a dor com mais sentido
é a da vida que não vivi
junto de ti
e devia ter vivido.

Terça-feira, Abril 01, 2008

Coração










Senhora
da Rocha
Foto TL

Coração que batias e insistias
em bater, contra pausas e cansaços,
volta a ser como eras nesses dias,
um pássaro em voo livre nos espaços
amplos e azuis. Ó frágil coração,
herói de tantas lutas e ousadias,
volta agora a bater como batias,
ao compasso das horas de paixão
com que tão sabiamente me iludias.